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Mensagem de Bento XVI para a Quaresma 2010.
Foi apresentada esta manhã, na Sala de Imprensa
da Santa Sé, a Mensagem do Santo Padre para a Quaresma, com o
tema: “A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus
Cristo”.
Participaram da coletiva à imprensa o Cardeal Paul Josef Cordes,
Presidente do Pontifício Conselho Cor Unum; o Prof. Dr. Hans-Gert
Pöttering, Presidente emérito do Parlamento europeu e Presidente
da Fundação Konrad Adenauer; e Mons. Giampietro Dal Toso,
Vice-Secretário do Pontifício Conselho Cor Unum.
Publicamos abaixo a íntegra da Mensagem, em tradução oficial
fornecida pela Secretaria de Estado do Vaticano.
“A justiça de Deus está manifestada
mediante a fé em Jesus Cristo (Rom 3, 21–22 )
Queridos irmãos e irmãs,
todos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma
revisão sincera da nossa vida á luz dos ensinamentos evangélicos .
Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões sobre o tema vasto
da justiça, partindo da afirmação Paulina: A justiça de Deus está
manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3,21 – 22 ).
Justiça: “dare cuique suum”
Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra
“justiça” que na linguagem comum implica “dar a cada um o que é
seu – dare cuique suum”, segundo a conhecida expressão de Ulpiano,
jurista romana do século III. Porém, na realidade, tal definição
clássica não precisa em que é que consiste aquele “suo” que se
deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não
lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em
plenitude, precisa de algo mais intimo que lhe pode ser concedido
somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele
amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado á sua imagem e
semelhança. São certamente úteis e necessários os bens materiais –
no fim de contas o próprio Jesus se preocupou com a cura dos
doentes, em matar a fome das multidões que o seguiam e certamente
condena a indiferença que também hoje condena centenas de milhões
de seres humanos á morte por falta de alimentos, de água e de
medicamentos - , mas a justiça distributiva não restitui ao ser
humano todo o “suo” que lhe é devido. Como e mais do que o pão ele
de facto precisa de Deus. Nora Santo Agostinho: se “ a justiça é a
virtude que distribui a cada um o que é seu…não é justiça do homem
aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus” (De civitate Dei,
XIX, 21).
De onde vem a injustiça?
O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se
inserem no debate de então acerca do que é puro e impuro: “Nada há
fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que
sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do
coração dos homens, que saem os maus pensamentos” (Mc
7,14-15.20-21). Para além da questão imediata relativo ao
alimento, podemos entrever nas reacções dos fariseus uma tentação
permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa
exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este
pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que reine a
justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua
actuação: Esta maneira de pensar - admoesta Jesus – é ingénua e
míope. A injustiça, fruto do mal , não tem raízes exclusivamente
externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os
germes de uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com
amargura o Salmista:”Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe
concebeu-se no pecado” (Sl. 51,7). Sim, o homem torna-se frágil
por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar
em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da
partilha, adverte dentro de si uma força de gravidade estranha que
o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os
outros: é o egoísmo, consequência do pecado original. Adão e Eva,
seduzidos pela mentira de Satanás, pegando no fruto misterioso
contra a vontade divina, substituíram á lógica de confiar no Amor
aquela da suspeita e da competição ; á lógica do receber, da
espera confiante do Outro, aquela ansiosa do agarrar, do fazer
sozinho (cfr Gn 3,1-6) experimentando como resultado uma sensação
de inquietação e de incerteza.
Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao
amor?
Justiça e Sedaqah
No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo
entre fé em Deus que “levanta do pó o indigente (Sl. 113,7) e
justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a qual em
hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem.
De facto sedaqah significa, dum lado a aceitação plena da vontade
do Deus de Israel; do outro, equidade em relação ao próximo (cfr
Ex 29,12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao
órfão e á viúva ( cfr Dt 10,18-19). Mas os dois significados estão
ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é senão
a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria do
seu povo. Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei a Moisés, no
monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho. Isto
é, a escuta da Lei , pressupõe a fé no Deus que foi o primeiro a
ouvir o lamento do seu povo e desceu para o libertar do poder do
Egipto (cfr Ex s,8). Deus está atento ao grito do pobre e em
resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o pobre (
cfr.Ecli 4,4-5.8-9), o estrangeiro ( cfr Ex 22,20), o escravo (
cfr Dt 15,12-18). Para entrar na justiça é portanto necessário
sair daquela ilusão de auto – suficiência , daquele estado
profundo de fecho, que á a própria origem da injustiça. Por outras
palavras, é necessário um “êxodo” mais profundo do que aquele que
Deus efectuou com Moisés, uma libertação do coração, que a palavra
da Lei, sozinha, é impotente a realizar. Existe portanto para o
homem esperança de justiça?
Cristo, justiça de Deus
O anuncio cristão responde positivamente á sede de justiça do
homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: “ Mas
agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus…
mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os crentes. De facto não
há distinção, porque todos pecaram e estão privados da glória de
Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da
redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como
vitima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé”
(3,21-25)
Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que
vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e
os outros. O facto de que a “expiação” se verifique no “sangue” de
Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo
do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre
até ao extremo, até fazer passar em si “ a maldição” que toca ao
homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus (cfr
Gal 3,13-14). Mas isto levanta imediatamente uma objecção:
Que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e o culpado
recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um
não recebe o contrário do que é “seu”? Na realidade, aqui
manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da justiça
humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um
preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o
homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidencia que o homem
não é um ser autárquico , mas precisa de um Outro para ser
plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no
Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da
auto suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência –
indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua
amizade.
Compreende-se então como a fé não é um facto natural, cómodo,
obvio: é necessário humildade para aceitar que se precisa que um
Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto
acontece particularmente nos sacramentos da Penitencia e da
Eucaristia. Graças á acção de Cristo, nós podemos entrar na
justiça “ maior”, que é aquela do amor ( cfr Rom 13,8-10), a
justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que
credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.
Precisamente fortalecido por esta experiencia, o cristão é levado
a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos
recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de
homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.
Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Triduo Pascal, no
qual também este ano celebraremos a justiça divina, que é
plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo
penitencial seja para cada cristão tempo de autentica conversão e
de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para
realizar a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de
coração, a Bênção Apostólica”.