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CELEBRANDO CORPUS CHRISTIDeus vivo nas estradas da humanidade. Começando o diálogo... a festa dentro da fé cristã... A festa de Corpus Christi dentro do ano litúrgico cristão se insere no ciclo do tempo comum e faz parte do grupo das quatro grandes festas do Senhor, quer sejam a Santíssima Trindade, Corpus Christi, Sagrado Coração de Jesus e Cristo Rei. São celebradas com o título de solenidade dentro das celebrações eucarísticas. Diferentemente das demais festas cristológicas e marianas que se relacionam e dependem do núcleo central do mistério pascal, estas solenidades completam e explicitam o mistério pascal da fé cristã. A festa de Corpus Christi surge no horizonte das práticas litúrgicas com o objetivo de realçar um dado da fé católica, buscando apoiar a fé da Igreja, para superar os conflitos internos como as heresias, mas também a necessidade de divulgar e popularizar alguns dogmas. A festa de Corpus Christi é uma resposta à devoção popular da eucaristia e manifesta a unidade da comunidade ao redor de Jesus Cristo. A partir da ação divina – a encarnação, da qual a eucaristia é uma manifestação – revela que Deus está no meio do seu povo e caminha por suas veredas. A validade atual desta solenidade cristã não consiste na apologia católica contra outros grupos religiosos cristãos, mas na manifestação da fé na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia e, a partir disso, a solidariedade de Deus com a humanidade. Um pouco de história A solenidade de Corpus Christi tem uma data específica dentro do calendário romano. Trata-se de uma data móvel (sem data fixa no calendário solar) que acontece na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade. Esta, por sua vez, vem celebrada no domingo após a Festa de Pentecostes. É antes de tudo uma “festa teológica”. Isso quer dizer que não se refere a um evento histórico, mas exalta a profissão de fé na presença real de Jesus Cristo na eucaristia. Sua está no movimento eucarístico da Idade Média, que realçava a presença real do Cristo nas espécies consagradas. Visa aprofundar e divulgar o mistério eucarístico da transubstanciação. Aparece, neste período, o gesto ritual de elevar a hóstia após a sua consagração, na celebração eucarística. Aos poucos vai se desenvolvendo o ritual e o conteúdo desta festa, que, já na Idade Média, se torna oficial para toda a igreja. Assim, a eucaristia se apresenta como sacrifício e refeição. Após o Concílio de Trento (século XVI), a Festa de Corpus Christi vai ser muito difundida, como afirmação da catolicidade dos povos fiéis à Igreja Romana e vai ganhar muita festividade e fervor, presentes nas procissões, nas vestimentas sofisticadas, nos pujantes tapetes folclóricos e nas ritualidades fascinantes. A contra-reforma católica vai propagar – dentro da liturgia barroca do século XVII e XVIII – a devoção à presença real de Cristo nas espécies do pão e do vinho. A festa do Corpo de Cristo torna-se no missal romano atual a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo. Existe uma relação teológica entre esta solenidade e a instituição da eucaristia celebrada na Quinta-feira Santa. Não se trata de uma festa duplicada, pois a última ceia está dentro do tríduo sagrado e se insere no mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Por sua vez, esta solenidade se presta à celebração mais específica do mistério eucarístico. Hoje, em tempos de grande propagação de movimentos religiosos não católicos, a celebração de Corpus Christi, bem como seus momentos de adoração eucarística tornam-se mais divulgados, como força apologética, certamente, mas também como reflorescimento da devoção eucarística, presentes na piedade cristã. Compreender a teologia da festa. Muitos cristãos não compreendem o significado teológico desta festa e acabam por atribuir-lhe um significado mágico ou meramente devocional. Além disso, esta festa exige necessariamente a profissão de fé na presença real de Jesus na Eucaristia, que confirma a presença de Deus na vida humana e sua participação na história do mundo. Destacamos as três dimensões desta solenidade: a. o passado , como representação memorial do mistério pascal, é o verdadeiro sacrifício de Cristo e sua auto-doação à humanidade, seu serviço sacerdotal ao mundo; b. o presente , como sacramento da unidade do universo com Cristo e dos seres humanos entre si, atualiza a ação salvífica de Cristo e inaugura a fraternidade e solidariedade entre os povos; c. o futuro , como prefiguração da nova história, é a sua transformação em Reino de Deus e a divinização da humanidade, transformada num único povo. Concluindo , podemos afirmar que a celebração representa a dimensão de ceia, partilha e convivência de irmãos e irmãs congregados pela fé. A dimensão sacrificial celebra o Cristo, como Cordeiro de Deus, que oferta sua vida para expiação dos pecados da humanidade, derramando seu sangue em favor da redenção da humanidade. A valorização exacerbada desta dimensão pode provocar um devocionalismo superficial e magicista da celebração. Do mesmo modo, o acento unidimensional do aspecto da refeição pode negar o aspecto da presença divina na Eucaristia e relegar o culto à única dimensão de reunião fraterna. Os dois aspectos, harmonizados e complementares constituem o verdadeiro significado desta solenidade. O que nos diz a mensagem bíblica desta solenidade... Os textos bíblicos apresentam no ciclo dos três anos (ciclos A, B e C) o sentido da eucaristia, como dom de Deus ao seu povo a caminho rumo à libertação. A liturgia do Ano A, destaca a relação entre o dom do maná no deserto, oferecido como alimento para a caminhada do povo (Dt 8,2-3.14-16a) e o corpo de Cristo, oferecido como pão vivo, que desceu do céu, para a salvação e libertação de toda a humanidade (Jo 6,51-59). No Ano B são relacionadas as duas alianças bíblicas. A última ceia como instituição do mistério eucarístico para a vida da comunidade dos fiéis (Mc 14,12-16.22-26) é descrita a partir da aliança do Sinai, simbolizada no sangue que Moisés asperge sobre o povo (Ex 24,3-8). O Ano C reflete a relação mais vivencial do mistério eucarístico, unindo sua mensagem ao milagre da multiplicação dos pães (Lc 9,11b-17) e relaciona o sacerdócio de Jesus que abençoa e partilha o pão, com o sacerdócio vétero-testamentário de Melquisedec, que oferece o pão e o vinho. Existe uma referência muito clara entre os dois personagens na sua ação sacerdotal em favor do povo, sobretudo dos pobres, com os quais o pão é partilhado. Em todos os textos bíblicos da celebração desta solenidade, destacam-se a presença de Deus nos alimentos do pão e do venho, bem como a participação de Deus na história humana. Confirmam-se, portanto, a ação sacerdotal de Jesus Cristo em favor dos povos e a doação de Deus aos pobres, sofredores e todos os povos. Caminhando nas ruas... São belíssimas e formosas as procissões de ruas, que se realizam em nossas comunidades. Algumas são muito famosas e vale a pena visitar e participar destes eventos, que manifestam a grande religiosidade popular. Antes de tudo, manifestam a devoção do povo à Eucaristia, mas revela também a alma mística de nossas comunidades, que quer se comunicar com Deus por meio de seus ritos. Com a liturgia barroca, a partir do século XVII, esta procissão se tornou um cortejo triunfal de ação de graças, visando também representar de modo apologético, o mistério eucarístico perante os cristãos não católicos, especialmente os protestantes. O sentido teológico mais atual desta celebração, com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, é a unidade do povo ao redor do seu Senhor, presente na eucaristia, sua força na caminhada do povo em marcha e o compromisso com os irmãos mais sofridos de nossa sociedade. Uma palavra final.... A celebração de Corpus Christi tem assumido dimensões muito solenes na vida litúrgica nos últimos tempos. Algumas vezes, revelam um grande devocionismo e isto deve ser trabalhado com delicadeza. Corre-se o risco de exacerbar os elementos míticos e criar uma relação fascinada entre o fiel e a “hóstia sagrada”, deteriorando o sentido social e da partilha do ritual eucarístico. Deve-se cuidar para que o “Corpus Christi” seja a manifestação da fé do povo que crê num Deus onipresente na história e presente em nossas vidas, profetizando a fraternidade universal e a unidade cósmica. Cristo está vivo e o seu corpo é uma forma de sua presença ser real entre nós. Isso nos deve levar ao compromisso verdadeiro, pois ninguém revela melhor o Pai, senão o Cristo e não há melhor revelação de Cristo que a vida dos irmãos e irmãs, sobretudo os que sofrem. Adoremos o “Corpus Christi” e manifestemos essa adoração na solidariedade com seus preferidos, os pobres desta terra. Pe. Antônio Sagrado Bogaz - orionita- doutor em Sagrada Liturgia -
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