Todo mundo montava barraca, enfeitava com papel crepom e ia pedindo prenda de casa em casa...

Hoje - como outrora, no primeiro século da Igreja - conhecemos a história da caminhada de fé pelas cartas da comunidade. Por esta carta, escrita à anos atrás por uma das nossas paroquianas, reconstituímos um pouco da história da Festa d'Achiropita.

São Paulo, 08 de agosto de 1979.

Querida Dirce,

Mais um agosto que chega, e Nossa Senhora Achiropita pede que você não se esqueça dela (nem dos amigos)! Apareça na quermesse, ou na procissão, faz um bom tempo que você não vem nos visitar...

Logo, logo nem vai mais reconhecer a gente, todo mundo de cabelinho grisalho, os netos crescidos... E quanta coisa mudou! Lembra aquelas casinhas velhas, com frente para a rua Luís Barreto, onde funcionava a creche? Tivemos que derrubar as paredes para deixar as salas maiores. São tantas crianças agora! A igreja comprou as casas vizinhas e pretende derrubá-las para construir um prédio a fim de abrigar essa criançada toda. Mas por enquanto é só sonho, o que a gente tem conseguido na quermesse ainda não foi suficiente. Mas quem sabe agora...

Você nem imagina como a quermesse cresceu! No ano passado, saiu do pátio e voltou para a rua. Só que as barracas são outras. A gente ainda vende pastel, mas acho que vai acabar. As barracas de prendas continuam, a do coelho, a do carrinho maluco... Contudo, nossa quermesse virou uma festa italiana, com comidas típicas. Sabe a Ida, do Otávio? Ela começou a fazer fogazza para vender na festa.

Trazia de casa as fogazzas prontinhas para fritar na hora, no mesmo tacho dos pastéis. Agora, somos umas vinte mulheres fazendo. Sabe a oficina do Pascoal, defronte à igreja? Estamos usando a garagem dele. Colocamos um fogão, preparamos tudo lá dentro. Uma hora eu faço a massa, outra hora abro, depois eu frito... Onde precisam de mim, eu estou. Mas tem ainda uma outra novidade: sabe aquele espaço descoberto, do lado da igreja? Montaram lá uma espécie de cantina, com uns mesões de uma ponta a outra... De vez em quando, vêm uns cantores, desses que se apresentam nas cantinas do bairro.

Digo para você: essas mudanças todas aconteceram por causa do Encontro de Casais. Vão entrando pessoas novas, com idéias novas... Idéias que nós não tínhamos antes, sabe, estávamos um pouco presos ainda àquela coisa antiga.. Os filhos obedeciam muito a gente e a gente obedecia muito o padre, que não dava aquela liberdade de se fazer o que quisesse. Eu, o João e outros quatro casais amigos– você conhece todos! – fizemos o Encontro de Casais com Cristo numa outra paróquia. Aí, no ano seguinte, em 75, realizamos o primeiro Encontro na Achiropita. Depois fizemos outro e outro...

De vez em quando, eu entro na igreja, olho para N. Sra. Achiropita e rezo pelas pessoas antigas, esses calabreses que amavam a Madonna. A festa cresceu tanto, tanto, que eu acho, sem vanglória nenhuma para essa gente antiga, que o alicerce foi muito forte. Dia desses, estava contando a história das quermesses para uns casais novinhos da paróquia. No começo, a quermesse era somente uma parte das comemorações de agosto em louvor a Nossa Senhora. Mulheres, homens, todo mundo montava barraca, pegava no martelo, enfeitava com papel crepom e ia pedindo prenda de casa em casa. Não vendia comida, não tinha nada com dinheiro. A gente colocava as prendas e sorteava – você se recorda? Era vaso de barro, prato, cafeteira, coador de não sei o quê... E a festa ficava cheia de jovens por causa do pau de sebo... Todo mundo queria subir no pau de sebo e ganhar o prêmio! E defronte à igreja ficava o coreto da banda dos bersagliere –ah, eles tocavam que era uma beleza!

E, quando foi um belo dia, a dona Maria Albanese teve a idéia de fazer uma barraca de comida. Então, eu pedi para a minha avó emprestar o fogão para eu cozinhar. A gente fazia pipoca, cozinhava pinhão, fervia uns pimentões... E a dona Maria Albanese trazia um pernil assado da casa dela. Aí começamos a vender sanduíches. Foi na época em que eu casei, acho, mais ou menos 1945. Depois, os filhos da gente começaram a crescer e a ter idéias mais modernas... Então, passamos a fazer pastel. Mas a quermesse já estava dentro do pátio. Eu, sua irmã, a Olga da rua Rocha – lembra dela? –, a Daisy, a Maria Emília... Preparávamos a massa. Depois, a gente lavava as coisas com esguicho, chegava em casa ensopada.

Foi um tempo de sofrimento e de doação. Não me esqueço da noite em que vinha o governador e os pastéis tinham acabado. Todo mundo ficou desesperado: e agora, e agora? Eu falei: ‘Me dá aqui um pouco de farinha!’ Em um instante fiz a massa, a Olga preparou o recheio e nunca um pastel ficou tão gostoso!

Na época em que você mudou para Santos, a quermesse estava um pouco apagadinha, acontecia naquele pátio atrás da igreja. Não eram nem barracas, eram umas mesas e nós vendíamos doce caseiro, churrasco, cachorro-quente, tinham umas prendas... E a gente precisava levar talher, pano de prato, tábua de bater carne, tudo de casa.

Mas a procissão continuou sempre bonita. Eu me lembro, nas primeiras procissões, de que os calabreses inventaram de colocar uma fita na mão de Nossa Senhora para angariar dinheiro. Aquele tempo eram mil-réis, era tostão, e o povo daqui era pobre. Então a gente andava com uma latinha e eles iam pondo as moedas. Quando eles tinham notinha, pregavam a notinha na fita com alfinete.

O primeiro andor de Nossa Senhora foi feito de caixão de cebola todo enfeitado...
Eu estava com uns oito anos e saía de anjo, naquele tempo era costume as mães vestirem a gente de anjo para acompanhar a procissão! A procissão também foi crescendo, não é? Havia aquele moço que levava o crucifixo – hoje é o filho dele quem leva –vinha a fila das crianças, a das Filhas de Maria, depois do Apostolado da Oração e ficava aquela procissão comprida... Atrás, vinham a banda e o povo acompanhando... Tinha um velhinho que acendia uma bateria de fogos onde agora é a Escola Maria José. Era uma beleza!

Quanta lembrança, amiga. Vou parar por aqui, senão acabo escrevendo um livro. Estamos todos com muita saudade de você. Não se esqueça de sua promessa de todo ano aparecer na quermesse... Vou sempre cobrar sua presença!


Todos lhe mandam um abraço.

Com carinho e a benção da Mãe Achiropita,

Ophélia

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